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A genética e a variabilidade inter-individual no desempenho desportivo

On: Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Ao longo de várias décadas, inúmeros investigadores reconheceram características fisiológicas importantes ao desempenho desportivo e descreveram a sua resposta típica ao treino. O relato desses dados normativos não é mais um desafio para as Ciências do Desporto. Não obstante a importância desse conhecimento, ainda subsiste de forma errónea o verdadeiro significado do valor médio dessas características. Na realidade ninguém corresponde à média; esse valor médio não é mais do que o resultado da análise de muitos indivíduos agrupados, usado como referência ou ponto de partida para a nossa intervenção. A média encobre a verdadeira extensão da variabilidade que podemos encontrar numa dada população de atletas se apresentarmos os valores individuais que estabelecem esse mesmo valor médio. Assim, este desvio padrão da variância é conhecido por variabilidade inter-individual.

Mas o que é que esse conceito de variabilidade associada ao desporto tem a ver como a genética? A resposta a essa questão reside na origem dessa mesma variabilidade. A variação de determinada característica (fenótipo), por exemplo o VO2máx, explica-se pela influência genética em combinação com factores ambientais de diversa ordem, contando ainda com o provável erro experimental associado ao registo do respectivo fenótipo. Existem fenótipos quase exclusivamente hereditários, como a cor dos olhos, mas temos outros que resultam da influência conjunta de factores genéticos com determinados contextos que são essenciais à expressão de determinado gene – p.e. o treino e a alimentação na melhoria da força muscular.
Concentrando a nossa atenção nos factores genéticos, sabemos da existência de cerca de 23000 genes comuns a todos nós. No entanto, o que diferencia o campeão olímpico de todos os outros está na ligeira variação da estrutura desses genes que afectam a sua funcionalidade e, por consequência, a manifestação de determinado fenótipo mensurável. Essa variação na sequência de nucleótidos, designada por polimorfismo, é o que os torna únicos (em parte) e diferentes de todos os outros. Cremos, sem qualquer dúvida, que será apenas possível o aparecimento de atletas de expressão física extraordinária em condições de rara convergência entre factores genéticos e ambientais.

O desafio actual é saber quais os genes determinantes, identificar as suas variações polimórficas e descrever por que mecanismos exercem os seus efeitos em determinado fenótipo. Uma abordagem comum estará no estudo de genes candidatos, que resulta do exame prévio da literatura científica disponível, sugerindo a importância de determinado sistema na regulação fisiológica de um dado fenótipo. Estuda-se, portanto, a relação entre a variante polimórfica do gene candidato e a magnitude consequente de um fenótipo particular.
O carácter batedor desta linha de investigação no âmbito das Ciências do Desporto oferece o potencial de facilitar novas descobertas, que alargarão o nosso conhecimento relativo a fisiologia do exercício e dos aspectos físio-patológicos decorrentes da sua prática. Adivinhamos, por isso, futuras aplicações resultantes e noções mais profundas dos mecanismos que controlam muitas das variáveis mais determinantes e estudadas no âmbito da performance desportiva.


Aldo M. Costa
Universidade da Beira Interior; CIDESD)
2009-11-26

OS LICENCIADOS E AS PROFISSIÕES DO DESPORTO

On: Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Actualmente existem em Portugal 25 cursos no Ensino Superior Público que formam Licenciados na área do Desporto. Desses, 9 são no ensino Universitário (em 7 instituições diferentes) e 16 são no ensino Politécnico (em 12 instituições diferentes).

Temos assim, e só no Ensino Superior Público, um total de 1075 vagas (todas preenchidas este ano lectivo mais uma vez, refira-se) para formar licenciados na área do Desporto (naturalmente prescindimos a referência aos dados do Ensino Superior Privado o que acrescentaria, julgamos, mais algumas centenas de vagas na área).

Em 30 de Março de 2009 entrou em vigor o Decreto-Lei n.º 248-A/2008, de 31 de Dezembro, (1ª série – n.º 252, disponível em http://dre.pt/pdf1sdip/2008/12/25203/0041200415.pdf) que estabelece o “regime de acesso e exercício da actividade de treinador de desporto”. Este diploma veio regular o acesso à profissão de treinador de desporto dispondo, de uma forma simplificada, que só pode exercer a referida profissão quem possuir uma “cédula de treinador de desporto” cuja obtenção passa a estar dependente do Instituto do Desporto de Portugal, sendo estas reguladas pelas Federações desportivas.

Tal significa que, para se poder ser treinador no desporto é necessária uma cédula que depende essencialmente das Federações desportivas, e serão estas a decidir que formações dadas nos cursos superiores permitirão ter equivalência à mesma (aos níveis iniciais, é claro). Estamos assim numa situação onde a experiência desportiva ou umas poucas dezenas de horas de “formação” resultarão numa qualificação superior a um licenciado que trabalhou e estudou mais de 4500 horas na respectiva área.

Este é apenas um exemplo mas poderíamos referir muitos outros na área do Desporto (como os ginásios, as autarquias, o turismo, a fisioterapia, a reabilitação, etc.) em como as licenciaturas em Desporto foram ultrapassadas. Deixaram-se ultrapassar por outras áreas que ocuparam um espaço deixado vago pelos especialistas em Desporto (ou supostos especialistas) ou ficaram até reféns de outras áreas e interesses.

Se não havia grande problema (ou assim se julgava) enquanto existiam muitas profissões da área e muitas vagas que podiam albergar as centenas de licenciados que todos os anos eram formados em Desporto no Ensino Superior, actualmente as implicações têm muito mais impacto.

Ser professor no Ensino da Básico e/ou Secundário é já praticamente impossível e assim continuará, previsivelmente, nos próximos anos (vão ainda existindo algumas vagas nas AEC’s no 1º Ciclo mas por pouco tempo…). No treino agora já não podem entrar, ou então ficam como auxiliares do “treinador à séria”. Na “animação desportiva” não são bem-vindos. Na fisioterapia ou reabilitação há anos que já nem se atrevem a tentar. As alternativas nos últimos anos estavam assim limitadas aos ginásios e clubes desportivos locais, mas sempre trabalhos muito mal remunerados (isto caso fossem remunerados…).

Estamos assim numa situação em que o desemprego dos licenciados em Desporto começa a aumentar significativamente e, pelo contrário, as ofertas na área continuam escassas ou inexistentes.

Este é, assim, um momento de crise em que é preciso agir, em que urge tomar decisões que mudem o rumo desta tendência. Fazer alguma coisa passa, certamente, por actuar ao nível da legislação. Mas passa também e fortemente por definirmos as competências de um licenciado, o conhecimento que deve dominar, as capacidades que deverá ter e, sobretudo, exercer. A mudança, se vamos de facto fazê-la, será feita já sobre uma crise existente. É como fazer a manutenção do navio quando a tempestade já estalou, não é claro a melhor altura, mas antes de irmos ao fundo ainda haverá possibilidades. Há mais de vinte anos que os avisos abundam, mas caíram, como se vê, em saco roto.

Mas também é possível continuar “na desportiva”, sem fazer nada, à espera do “milagre salvador”. Não nos podemos, é esquecer que não fazer nada é uma decisão como outra qualquer, também com consequências e implicações.

Covilhã, 22 de Novembro de 2009
António Vicente

Nota: Os dados apresentados são referentes ao ano lectivo em curso (2009/2010) e estão disponíveis em http://www.dges.mctes.pt/DGES/pt

A importância da avaliação no processo de aprendizagem

On: Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Dadas as funções até recentemente assumidas de direcção de curso do 1º ciclo de estudos em ciências do Desporto da UBI, e preocupada com a optimização do processo de aprendizagem dos alunos, reflecti sobre o papel da avaliação na aprendizagem, ao nível do ensino universitário.
O ponto de partida para esta reflexão foi o trabalho do professor Anton Havnes, do Centre for Staff and Learning Development, Oslo University College, com o tema Examination and learning: An activity-theoretical analysis of the relationship between assessment and learning (pode ser consultado em http://www.leeds.ac.uk/educol/documents/00002238.htm).

Neste artigo o autor refere que os professores assumem que são as suas aulas e orientações pedagógicas que direccionam a aprendizagem dos alunos, mas de facto os alunos auto-orientam-se na aprendizagem relativamente aos aspectos sobre os quais vão ser avaliados. Assim, o que rege a aprendizagem é a avaliação, e não a “pedagogia” do professor.

No mesmo sentido, o Center for the Study of Higher Education (Austrália, endereço http://www.cshe.unimelb.edu.au/assessinglearning/05/index.html) reflecte sobre a diferente visão que a avaliação tem para os docentes e para os alunos, apresentado uma síntese na seguinte figura:


Assim, a avaliação tem de deixar de ser vista como uma ferramenta de controlo da aprendizagem (no sentido de avaliar o nível de aprendizagem dos conteúdos, por parte dos alunos), para passar a ser uma ferramenta pedagógica que melhora o próprio processo de aprendizagem.

A avaliação de conhecimentos no ensino universitário deve emergir das competências que os alunos devem adquirir, após o estudo de um determinado conteúdo curricular.
Essas competências devem ser claras para o estudante, que deve ter noção do que se espera dele, em termos da aprendizagem – deve compreender os resultados de aprendizagem esperados.

Assim, a avaliação de conhecimentos deve ter três objectivos base:
1. Orientar e motivar a aprendizagem, clarificando os resultados esperados;
2. “Medir” os resultados de aprendizagem de cada aluno
3. Ajudar a programar o volume de trabalho individual do aluno

Esta “nova” visão da avaliação exige uma adequação, por parte dos professores, que devem reflectir:

• O que é importante avaliar?
• Como se avalia?
• A avaliação feita permite aferir as competências que os estudantes devem desenvolver, neste conteúdo curricular?

Por outro lado, os alunos não podem alhear-se do processo de avaliação, devendo questionar-se:

• O que se espera que eu aprenda?
• Como vou ser avaliado?
• O volume de trabalho, das diferentes unidades curriculares é adequado, para a aprendizagem exigida?
• Os meios (literatura, bases de dados, orientação do docente, tipo de aulas) são adequados, face aos resultados de aprendizagem pretendidos?
• O tempo que estou disposto a investir é suficiente para desenvolver as competências pretendidas?
• Como vou planificar o trabalho de modo a optimizar a aprendizagem?

Concluindo, se quer os docentes quer os estudantes passarem a ver a avaliação como um meio facilitador da aprendizagem, podem emergir duas vantagens: a primeira é que se adquiram mais facilmente as competências desejadas, por se tornarem mais claras para os alunos, uma vez que são especificamente essas competências o objecto da avaliação; a segunda possibilitar que os resultados da avaliação reflictam mais fielmente a aprendizagem individual, no âmbito das competências definidas.



Dulce Esteves, Ph.D.
Professor and Researcher
Sports Science Department
University of Beira Interior
Covilhã - Portugal
Tel: +351 275 329 153; Fax: +351 275 320 695
Email: desteves@ubi.pt

Tecnodoping ou evolução tecnológica ao serviço do Desporto?

On: Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009


A utilização dos fatos de banho de última geração por parte dos nadadores veio levantar, mais uma vez, a questão sobre se as vantagens dos mesmos não poderiam desvirtuar o resultado desportivo. Esta situação já tinha sido repetidamente discutida aquando da primeira grande inovação nos fatos utilizados pelos nadadores, iniciada no início deste século. Esta situação levou a Federação Internacional de Natação (FINA) a regular os fatos utilizados, sendo necessário que qualquer fato fosse aprovado pela FINA e estivesse a ser comercializado e à disposição de qualquer nadador.
Contudo, com a entrada no mercado da nova geração de fatos de banho, desenvolvidos basicamente à base do poliuretano, a discussão e a controvérsia voltou a sentir-se no meio desportivo. Nos Jogos Olímpicos de Pequim, 2008, atingiram-se números nunca antes previstos: 25 recordes mundiais, 66 recordes olímpicos e mais de 1000 recordes continentais e nacionais. Todavia, estes números não ficaram por aqui. No presente ano (que ainda não terminou), já foram estabelecidos 174 recordes do mundo, tendo, só nos Campeonatos Mundiais de Roma, sido batidos 43 recordes do mundo, atingindo-se aquilo que muitos apelidaram de “nova ordem na natação mundial”, marcada pela evolução tecnológica dos fatos de banho utilizados.
Esta evolução constante levou a que a discussão se centrasse em torno de questões relacionadas com a artificialidade destas tão elevadas prestações desportivas. Houve mesmo quem sugerisse que esta situação poderia ser comparada às questões do doping, apelidando estes casos de tecnodoping. Todavia, várias vozes se ergueram defendendo a evolução tecnológica no desporto. Um nadador utilizar um fato de banho de última geração não pode ser comparado à utilização de uma chuteira, especialmente desenvolvida para um jogador de futebol? Ou à utilização de uma bicicleta, desenvolvida com um material muito mais leve e aerodinâmico por parte de um ciclista? Ou à utilização de um carro de Fórmula 1, com uma carroçaria que permite maximizar a potência do motor? Efectivamente, não são questões de resposta simples. Por outro lado, os investimentos avultados que as marcas desportivas fizeram no desenvolvimento e produção destes novos fatos de banho também não devem ser descurados. Muitas destas empresas contribuíram para a dinamização da economia, para a inovação tecnológica, para a valorização da iniciativa empresarial e para a cooperação entre as empresas e as unidades/centros de investigação.
Tendo em consideração todos estes argumentos, a FINA decidiu alterar a regra que regulamenta a utilização dos fatos de banho. Desta forma, a partir de Janeiro de 2010, os fatos de banho para os homens não devem passar acima do umbigo ou abaixo do joelho, e para as mulheres, não devem cobrir o pescoço, nem devem prolongar-se além do ombro e abaixo do joelho. Por outro lado, todos os fatos de banho devem ser feitos de matérias têxteis (materiais como o poliuretano devem ser excluídos).
Todavia, várias pessoas afirmaram que a FINA tomou esta posição demasiado tarde, depois de “o mal já estar feito”. Desta forma, há quem afirme que alguns recordes dificilmente serão batidos e que, após um período em que o espectáculo foi a nota dominante na natação mundial, entraremos num período de alguma estabilização ou mesmo declínio mediático. Na minha opinião, esta perspectiva é demasiado pessimista. Não tenho dúvidas que os fatos contribuíram bastante para a melhoria acentuada da prestação desportiva. Porém, a melhoria dos métodos de treino e recuperação, a profissionalização dos técnicos e nadadores, a melhoria das condições de treino, a melhoria do conhecimento dos princípios biomecânicos que influenciam a prestação do nadador, bem como a melhoria das instalações desportivas (piscinas com mais profundidade, novos separadores de pistas, blocos de partida melhorados) foram também aspectos que contribuíram decisivamente para a enorme melhoria verificada na prestação desportiva. Neste sentido, é minha convicção que continuaremos a assistir ao estabelecimento de novos recordes mundiais, acreditando que, nas próximas grandes competições internacionais (Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos), esta situação ocorrerá. Não com tanta exuberância como temos assistido nestes últimos dois anos, acredito que a evolução da natação mundial não ficará estagnada.


Daniel Marinho
Docente da Universidade da Beira Interior, Departamento de Ciências do Desporto
Membro do Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano

A UNIVERSIDADE E O DESPORTO: Exigências e Desafios

On: Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009


Como qualquer outra instituição, a Universidade tem de nortear-se por uma preocupação de eficiência no desenvolvimento das suas políticas e na busca de cumprir com os seus objectivos. Sendo um espaço de conhecimento, a Universidade tem de ser uma instituição de referência para a sociedade neste âmbito. Para isso não poderá esquecer que conhecimento não é só um conteúdo mas também um processo (metodologias, suas aplicações e implicações) que transforma quem o domina e utiliza, para além dos efeitos que pode construir e produzir.
Nem sempre este espírito tem norteado a vida Universitária. Momentos têm existido onde a pretexto de condicionamentos conjecturais ou estruturais, esta instituição tem sido privada de alguns destes pilares. A aparente eficiência de uma visão centrada no imediato leva à tentação de ficar por uma superficialidade que no curtíssimo prazo pode enganar alguns, mas que faz perder os benefícios que poderiam ser gerados (por isso é enganador), transformando sobretudo os ganhos que podiam ser obtidos em simples aparências, pois os processos que poderiam ter gerado as vantagens não foram cumpridos.
A semelhança entre o processo Desporto e o processo Universidade é aqui evidente. As medalhas daquele e os diplomas e carreira deste são precisamente o mesmo. É fácil comprar umas medalhas e/ou uns diplomas, o esforço necessário num caso e noutro nem é grande. Mas o que nos fica? Uns bocados de metal e de papel que para nada servem (bem, podem servir para durante algum tempo enganarem os incautos). Não tendo sido cumprido o processo transformador de quem o viveu, nada fica para além de pobres aparências.
A construção de um conhecimento inovador de ponta, o incentivo ao confronto de ideias, de conhecimento, a liberdade de se poder debater são algumas das funções exigidas (facultadas?) à Universidade e aos universitários, pois são o processo que os leva a amadurecerem e a evoluírem, ganhando capacidades e potencialidades que antes não possuíam, ficando capazes de realizar novas obras. Formando-se (transformando-se num sentido positivo) e não enformando-se (metendo-se numa forma) o que não passaria de ser mais do mesmo.
A liberdade tem aqui um papel crucial. É preciso ser-se livre para se poder inovar, educar, formar. Mas esta liberdade traz consigo um sentido de responsabilidade. É preciso ser-se responsável pela nossa liberdade, pelos nossos actos, pelas nossas opiniões, por nós e pelos que connosco partilham este caminho.
Nem sempre este espírito, que alguns classificam de altruísta (mas que não passa de estupidez pois faz-nos perder os benefícios que poderíamos obter de um outro modo), tem sido sentido ou vivido na Universidade. É bem mais cómodo fazer a viagem sozinho (uma estafa, mas enfim…) do que ter de partilhar, confrontar e debater conhecimento, ideias, vontades e até sonhos. É como no Desporto fazer musculação sem colocar os pesos nos alteres, é muito mais fácil de fazer os movimentos mas efeitos … nenhuns (como dizíamos estupidez), para além de perdermos tempo.
Há um sentido no ser Universitário que nos obriga a superar, a ter de assumir as nossas posições, as nossas convicções e que nos tem de distinguir dos demais. É preciso ser crítico, ter um conhecimento que nos permita assumir a licença que temos para… decidir!
É precisamente este poder de decisão que fará a diferença entre os bons e os outros. Os que decidem bem e os que não (que ou não decidem ou decidem mal). Os que assumem a sua licença (o sentido de ser licenciado) para decidir e os que preferem replicar um conjunto de técnicas ou receitas memorizadas. Os que têm sentido crítico e os que se limitarão a reproduzir o que lhes foi transmitido.
É este também o espírito do Desporto: a superação. É a competição constante em busca dos limites humanos, visando sempre alargá-los e descobrir que o impossível não existe, que é sempre possível fazer mais e melhor. Ao contrário do que alguns possam ainda pensar ou fazer crer, a expressão, “na desportiva” não significa (não deve significar) “à balda”, sem esforço ou empenho, mas pelo contrário um sentido de superação de se descobrir a si próprio, de conhecer os seus limites e de sentir novas emoções.
Mas também no Desporto há quem queira não ser mais do que um repetidor com um pouco mais de músculos do que os outros, não percebendo que nem o processo é eficiente por não fazer os campeões (qualquer nível, desde os iniciados ao mais alto escalão competitivo) procurados, nem será interessante ver um desportista igual aos outros só com mais alguns cavalos (alguns dirão burros) vapor de potência.
Este capital do Desporto, aquilo que faz dele um espectáculo, um meio de acção para a educação, para a saúde, para o lazer, etc. (um enorme mercado mundial que não podemos delapidar) tem de ser obrigatoriamente aproveitado pelos profissionais do Desporto, entre os quais os licenciados em Ciências do Desporto têm uma responsabilidade acrescida. Estes não podem ser iguais aos demais, nem sequer desejar repetir as receitas que porventura possam ter dado bons resultados outrora. Os licenciados em Ciências do Desporto estão obrigados a inovar, a criar o Desporto do futuro tendo por base um conhecimento de ponta e com um sentido crítico que lhes permita ter a coragem de assumir esta responsabilidade – o que não é mais do ser universitários (note-se que ser universitário não é o mesmo do que andar numa Universidade).É isto que o Mundo, a Universidade e o Desporto exigem de todos: o Melhor! Sempre! Só o Melhor tendo em conta a função que se desempenha e os objectivos que devemos cumprir!

Covilhã, 27 de Setembro de 2009
António Vicente

O Desporto para Deficientes

On: Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009


Apesar de nos encontrarmos no ano 2001, é lamentável que nem todos os cidadãos deste país sejam tratados de igual modo e não desfrutem das mesmas oportunidades que outros. Estou concretamente a referir-me àqueles, que devido às circunstâncias e contingências da vida, acarretam consigo uma incapacidade física ou mental. Estes, para além de esquecidos e rejeitados pela sociedade em geral, são igualmente prejudicados na actividade desportiva.
Hoje em dia, observamos que a nossa população adere cada vez mais à prática do desporto e actividade física. As nossas praias, ruas, parques, etc., são cada vez mais cenários da prática desportiva. No entanto, estou certo que muitos de vocês nunca ouviu falar de desporto para deficientes. Mas ele existe! Por incrível que pareça, ainda existem pessoas neste país que se dedicam ao desporto para deficientes com toda a alma e carinho, apesar dos apoios humanos e monetários serem praticamente inexistentes ou precários. Esta triste realidade é fácil de ser explicada. O desporto para deficientes não enche os estádios, não move os media, não promove certo tipo de pessoas, enfim, não tem a visibilidade de que muitos precisam. As entidades ou núcleos de pessoas directa ou indirectamente envolvidas no desporto, apenas se interessam por aqueles que lhes podem oferecer poder, fama ou dinheiro. Como o desporto para deficientes não lhes proporciona tudo isto, o resultado final é o esquecimento e abandono daqueles que mais necessitam do nosso apoio.
Como todos vocês se lembram, no final do ano passado assistimos a mais uma Olimpíada, Sidney. Uma vez mais, a participação lusa pautou-se pelos fracos resultados, tendo Portugal obtido uma única medalha (judo), o que já vem sendo um hábito ao longo do nosso historial olímpico.
Algumas semanas mais tarde, na mesma cidade (Sidney), tiveram lugar os Paralímpicos (Olimpíadas para indivíduos com deficiências). Aqui, o brilho das medalhas foi bem maior, já que Portugal obteve um total de 15 medalhas, elevando bem alto o nome de Portugal. Posso-vos ainda dizer que estes fabulosos atletas que têm vindo sistematicamente a conquistar medalhas de ouro, de prata e de bronze, quer em campeonatos do Mundo, quer em campeonatos da Europa, receberem, durante os Paralímpicos, prémios monetários bem inferiores em relação aos atletas ditos normais.
Tenho também a certeza que foram muito poucos aqueles souberam ou acompanharam de perto o sucesso dos nossos bravos “Guerreiros”. A nossas televisões, rádios e jornais que realizaram uma fantástica cobertura nos Jogos Olímpicos, praticamente deixaram passar em claro a participação da comitiva portuguesa nos “outros jogos”, os Paralímpicos”. No entanto meus caros leitores, a culpa deste esquecimento não deve ser somente atribuída aos media, ao estado ou a outros organismos com responsabilidades cívicas, mas também a cada um de nós. Sim, porque nada fazemos para chamar a atenção das entidades responsáveis, pois o tema é delicado e difícil. Há que ser corajoso e reivindicativo nesta matéria. Aqueles que possuem deficiências poderiam ser vossos filhos, sobrinhos ou netos, estando certo que nenhum de vós desejaria que estes vossos entes mais queridos fossem deixados na sombra do esquecimento.
Muito recentemente, assisti a um seminário sobre o desporto para deficientes na Escola Secundária de Augusto Gomes. Este evento foi conduzido pelo o núcleo de estágio daquela escola, contando com a participação de dois grandes atletas de alto nível desportivo. Na parte final desse mesmo seminário, estes atletas realizaram um jogo denominado de Boccia (jogo de precisão). Foram efectivamente momentos inesquecíveis. Estou certo que, o empenho, o entusiasmo, a garra e a alegria de que cada um dos atletas mostrou, sensibilizou a assistência e fez-nos pensar em muitas coisas da vida. Muitos destes atletas, para atingirem elevadas performances, treinam cerca de quatro a cinco horas por dia, incluindo sábados e domingos. - Isto não é alta competição? Certamente que sim. Como se as dificuldades apontadas anteriormente não bastassem, alguns destes indivíduos têm de se deslocar do interior do nosso país para as grandes cidades só para obterem melhores condições de treino, para longe das suas famílias, onde nem sempre o regresso ao fim de semana é possível. Estes desportistas são uma vez mais vítimas dos desequilíbrios regionais que ainda persistem no nosso Portugal. Neste sentido, cidadãos, estado, media, entre outros, devem reflectir seriamente sobre a integração do deficiente na comunidade, em particular, no desporto de alto rendimento.

Professor Mário Marques


Mário A. Cardoso Marques, PhD
Department of Sport Sciences, University of Beira Interior – Portugal

Research Centre for Sport, Health and Human Development - Portugal
Associate Editor of the International Journal of Volleyball Research
Work address:
Departamento C. Desporto
Rua Marquês D´Ávila e Bolama
6200-001 Covilhã, Portugal
Tel. +(351) 275329153 / Fax. +(351) 275329157

Que retorno social se espera da Formação Universitária?

On: Terça-feira, 29 de Setembro de 2009


“[…] os homens instruídos e com estudos, se, para começar, forem inteligentes e criativos, o que infelizmente, raramente acontece, tendem a deixar atrás deles memórias mais valiosas do que os homens simplesmente brilhantes e criativos. […] E, o que é mais importante, nove em cada dez vezes são mais humildes do que os pensadores sem estudos”. Jerome Salinger


Cada estudante duma universidade pública é financiado em cerca de 4000€/ano. A sociedade investe esse montante em cada aluno - “investe”, não “doa”. Investir pressupõe um retorno, um ganho.
Assim, no início deste ano lectivo, há uma questão que deve ser considerada: Que retorno espera a sociedade de cada estudante?
A disseminação do conhecimento e a facilidade de consulta de elementos de estudos, resultantes do desenvolvimento tecnológico, obrigam a repensar o papel do estudante universitário. De “marrão”, o estudante viu-se obrigado a ser um optimizador da informação disponível, de modo a possibilitar a resolução de problemas. Enquanto antes o objectivo era reter o máximo de informação e saber a sua aplicabilidade, agora passou a ser usar essa informação para intervir em situações “reais”, com criatividade e eficiência, interligando matérias de diferentes disciplinas. Ao estudante, hoje, é exigido um papel muito mais activo na aprendizagem, o que só é possível se houver uma consciencialização de que, na sociedade actual, “não basta saber”, é necessário saber “fazer”.
Concluindo, a sociedade exige que o estudante saia da universidade com capacidade de intervir na própria sociedade. Qualquer estudante que pretenda apenas “fazer as cadeiras”, não está a dar o devido retorno social. É, pois, um mau investimento.
Por outro lado, a Universidade, hoje, deixou de ter o monopólio do saber. Enquanto antes as universidades eram o centro da criação de conhecimento, hoje a sua contribuição é apenas parcelar. Actualmente são as empresas, com os centros de investigação, que assumem o protagonismo do desenvolvimento científico, e as universidades só se tornam, de novo, centros de saber, quando dialogam com a sociedade, com vista a contribuir para a resolução dos problemas “reais”.
No passado, sobre a questão “porque é que um jovem deve investir cerca de 6% do seu tempo de vida na universidade?” a resposta era clara: para adquirir conhecimento que dificilmente pode adquirir noutras circunstâncias. Actualmente, será que a resposta a esta questão continua assim tão clara? Que mais-valias pode dar a universidade na formação de cidadãos, numa sociedade em que o conhecimento está tão disseminado?
De facto, é na aquisição de competências que o papel da Universidade deve estar centrado, usando vias que facilitem a aquisição de conhecimento crítico, criativo e operativo, mas também na aquisição de qualidades cívicas e éticas, como o interesse por ser particularmente interveniente numa sociedade que investiu em si e a necessidade de ser um profissional de elevada qualidade. Este novo papel da Universidade exige que a formação humana dos estudantes passe a ser central, a par da formação académica.
Em suma, a sociedade investe, e exige que cada aluno queira ser o melhor estudante possível, adquirindo não só conhecimento “teórico”, mas operativo; desenvolvendo capacidade de trabalho e de resolução de problemas com criatividade; respeito por diferentes opiniões, optando por vias de diálogo; sentido crítico e processos de aprendizagem autónomos; mas também competências como responsabilidade, sentido de justiça social, confiabilidade (dada pela honestidade, integridade, cumprimento de palavra e lealdade*), respeito e desejo de continuar a aprender.
Destas competências emerge, naturalmente uma cidadania responsável, uma intervenção que permitirá à sociedade evoluir no sentido de responder cada vez melhor às necessidades individuais e colectivas, gerando bem-estar e qualidade de vida.

Dulce Esteves
Setembro 2009

*Josephson, M. (2002). Making Ethical Decisions. Ed. Josephson Institute of Ethics

Ser Universitário, Ser Cidadão, Ser Português

On: Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009


Quando este artigo de opinião for lido todos já conhecerão os vencedores das eleições legislativas, mesmo que ainda não se saiba quem vai governar o País e como o vai fazer. Logo a seguir arranca a campanha para as últimas eleições do ano que mais uma vez possibilitará aos cidadãos se pronunciarem sobre determinadas escolhas.
Também a Universidade da Beira Interior, e considerando a necessidade de aplicar as directrizes do RJES (Regime Jurídico do Ensino Superior), viveu há pouco tempo um período de debate interno tendo em vista a eleição do Conselho Geral da Universidade e consequente eleição do Magnifico Reitor. Neste momento já se encontram aprovados os regulamentos das faculdades sendo o processo eleitoral desencadeado muito em breve, para também toda a comunidade académica se poder pronunciar sobre as escolhas a fazer. Neste sentido, somos todos convidados a participar activamente nos processos conducentes à eleição dos órgãos directivos e desse modo contribuir para a construção e desenvolvimento da Universidade da Beira Interior.
Porém essa responsabilidade deve ser assumida diariamente nas diversas questões quotidianas que exigem a nossa opinião e a nossa presença activa, no contexto social, político, familiar e académico. Apesar de vivermos na era da globalização, o afastamento das pessoas, em especial das mais jovens, das questões políticas e das questões associativas tem contribuído para que as sociedades modernas, ditas livres, tendam a ser cada vez mais individualistas e independentes.
A participação activa nas questões que nos dizem respeito a todos, ou por outras palavras o exercício pleno da cidadania, exige contudo a nossa disponibilidade para procurar, recolher e tratar a informação necessária à tomada das posições. Não basta pois estar atento à informação, mas é fundamental procurar o Conhecimento que sustente a nossa intervenção no mundo que nos rodeia.
A Universidade é por natureza, um espaço privilegiado precisamente para a construção e divulgação do Conhecimento, ferramenta indispensável para a formação dos indivíduos com consequências inerentes na promoção dos valores da cidadania. O Conhecimento é dinâmico, não se compadece com passividade, mas empurra para o esclarecimento, para a reflexão e em última análise para a decisão. Apesar de terem papéis diferentes no contexto universitário, professores e alunos, devem assumir esta faceta no processo ensino-aprendizagem. Neste âmbito pede-se aos professores que sejam capazes de transmitir conhecimento e não apenas debitar informação; que sejam capazes de envolver e motivar os alunos na construção desse conhecimento adequando-o às realidades que se avizinham; que sejam capazes de promover a reflexão crítica, o raciocínio e a autonomia de expressão. Aos alunos por sua vez pede-se trabalho e empenho que justifique a oportunidade de frequentarem o ensino superior; pede-se atitude de quem quer aprender e está disposto a colaborar na sua aprendizagem; pede-se determinação e paciência pelos resultados que só terão efeito significativo ao longo do seu percurso de vida. Para todos, os desafios são grandes e emergentes, mas só com este esforço colectivo se pode melhorar aquilo que muitos chamam de “petróleo luso”- os cidadãos portugueses - e desse modo cumprir-se o papel da Universidade.
Neste arranque de ano lectivo, votos para que os professores, estudantes e funcionários do Departamento de Ciências do Desporto, e de modo particular os novos alunos que frequentam os cursos ministrados, possam contribuir para sermos melhores universitários, melhores cidadãos e melhores portugueses.

Covilhã, UBI, 25 Setembro 2009


Rui Brás, Ph.D.
Professor and Researcher
Sports Science Department
University of Beira Interior
Covilhã - Portugal
Tel: +351 275 329 153; Fax: +351 275 320 695
Email: rmmb@ubi.pt